Hubble encontra evidências de uma antiga fusão que ajudou a formar a Via Láctea
Novos dados do Telescópio Hubble revelam evidências de que a Via Láctea absorveu uma galáxia menor há cerca de 11,8 bilhões de anos, ajudando a reconstruir a história da nossa galáxia.
AGORA NA TECH
8/22/20265 min read


A Via Láctea parece uma estrutura estável quando observada do nosso ponto de vista. Mas sua história foi muito mais turbulenta. Nossa galáxia cresceu ao longo de bilhões de anos, formando novas estrelas e incorporando material de outras galáxias.
Agora, novas observações do Telescópio Espacial Hubble, combinadas com dados da missão Gaia, revelaram evidências consideradas definitivas de uma dessas antigas fusões. O evento aconteceu há aproximadamente 11,8 bilhões de anos, quando a Via Láctea ainda estava nos primeiros estágios de sua evolução.
A descoberta, publicada na revista Nature Astronomy, recua em cerca de 1,8 bilhão de anos o período da história da Via Láctea para o qual os astrônomos tinham evidências firmes de uma grande fusão.
O que o Hubble encontrou?
O Hubble não fotografou duas galáxias colidindo. A fusão aconteceu há tanto tempo que não existe uma imagem direta do evento.
O que os pesquisadores encontraram foram vestígios deixados pela antiga galáxia, preservados dentro da própria Via Láctea.
A equipe analisou 39 aglomerados globulares localizados nas regiões internas da nossa galáxia. Esses aglomerados são enormes concentrações de estrelas muito antigas e funcionam, de certa maneira, como registros arqueológicos do passado galáctico.
Com as observações de alta resolução do Hubble, os pesquisadores conseguiram determinar com maior precisão a idade e a composição química dessas populações de estrelas. Os dados foram combinados com informações de movimento obtidas pelo observatório espacial Gaia.
Essa combinação revelou um grupo de aglomerados com características diferentes das populações já conhecidas.
Eles não pareciam ter se formado originalmente dentro da Via Láctea.
As evidências indicam que pertenciam a uma galáxia menor que foi absorvida pela nossa.
Os pesquisadores deram a essa antiga galáxia o nome Low-energy-Kraken-Heracles, ou simplesmente LKH. Ela possuía aproximadamente 500 milhões de vezes a massa do Sol apenas em estrelas, uma quantidade significativa considerando o tamanho que a Via Láctea tinha naquela época.
Como uma fusão entre galáxias acontece?
Apesar de utilizarmos a palavra "colisão", uma fusão galáctica é muito diferente de uma colisão entre objetos sólidos.
As galáxias são compostas principalmente por espaço vazio. Mesmo quando duas delas passam uma pela outra, é improvável que estrelas individuais simplesmente se choquem.
O que realmente acontece é uma enorme interação gravitacional.
Quando uma galáxia se aproxima de outra, a gravidade começa a alterar as trajetórias das estrelas, do gás e da matéria escura. Dependendo das massas e das velocidades envolvidas, as duas estruturas podem permanecer interagindo durante bilhões de anos até que uma acabe sendo incorporada pela outra.
Foi essencialmente esse processo que aconteceu com a LKH.
A jovem Via Láctea tinha uma massa muito menor do que possui atualmente e estava inserida em um ambiente muito mais caótico. A atração gravitacional fez com que a galáxia menor perdesse sua identidade como estrutura independente, enquanto suas estrelas e outros componentes foram incorporados à nossa galáxia.
O processo também pode provocar alterações no gás interestelar. Quando grandes quantidades de gás são comprimidas durante uma interação galáctica, novas regiões de formação estelar podem surgir.
Portanto, uma fusão não significa simplesmente que uma galáxia "bateu" em outra. É um processo gravitacional prolongado que pode modificar a estrutura e a evolução das duas galáxias.
O que isso revela sobre a juventude da Via Láctea?
Essa é uma das partes mais importantes da descoberta.
A Via Láctea que existia há quase 12 bilhões de anos era muito diferente da galáxia que observamos atualmente. Ela ainda estava crescendo e reunindo material que posteriormente ajudaria a formar sua estrutura atual.
Até então, havia evidências de uma grande fusão ocorrida aproximadamente 10 bilhões de anos atrás, conhecida como Gaia-Sausage-Enceladus. A nova pesquisa mostra que uma fusão importante aconteceu ainda antes disso, cerca de 11,8 bilhões de anos atrás.
Isso muda a compreensão sobre como a Via Láctea começou a crescer.
Durante muito tempo, estudar a formação da nossa galáxia significava principalmente analisar estrelas que nasceram dentro dela. A nova evidência mostra que parte desse processo também envolveu estrelas que nasceram em outras galáxias e posteriormente foram incorporadas à Via Láctea.
Em outras palavras, a história da nossa galáxia não foi construída apenas de dentro para fora.
Ela também foi construída pela reunião de diferentes estruturas cósmicas.
Essa constatação é importante porque ajuda os astrônomos a reconstruir como uma galáxia espiral como a Via Láctea conseguiu chegar à enorme estrutura que possui atualmente.
Por que estudar o passado da Via Láctea é tão importante?
Conhecer a história da nossa galáxia não serve apenas para descobrir acontecimentos que ocorreram bilhões de anos atrás.
Isso ajuda a explicar por que a Via Láctea possui a estrutura que vemos hoje.
A posição das estrelas, a composição química de diferentes populações estelares e a distribuição de aglomerados podem carregar informações sobre acontecimentos ocorridos no passado. Ao identificar quais estrelas nasceram juntas e quais vieram de outras galáxias, os astrônomos conseguem reconstruir partes dessa história.
Esse tipo de investigação também ajuda a compreender a origem do próprio ambiente onde o Sistema Solar surgiu.
O Sol se formou bilhões de anos depois dessa antiga fusão, quando a Via Láctea já havia passado por várias etapas de evolução. Portanto, entender como nossa galáxia acumulou estrelas, gás e outros materiais ao longo do tempo ajuda a contextualizar onde e em que tipo de ambiente o Sistema Solar acabou surgindo.
Além disso, a Via Láctea não é uma exceção.
Galáxias crescem e evoluem por meio de processos semelhantes em diferentes regiões do Universo. Estudar nossa própria galáxia, onde conseguimos observar estrelas individualmente com grande precisão, fornece uma espécie de laboratório para compreender a evolução de outras galáxias muito mais distantes.
É como reconstruir a história de uma cidade antiga examinando suas construções, seus objetos e as camadas deixadas ao longo do tempo. No caso da Via Láctea, esses vestígios são estrelas, aglomerados, movimentos e elementos químicos.
Uma história que ainda está sendo descoberta
A nova descoberta não encerra a investigação sobre a formação da Via Láctea. Pelo contrário.
Os pesquisadores pretendem continuar estudando os aglomerados globulares para identificar outras fusões que ocorreram durante a evolução da galáxia. O Hubble ainda observa aglomerados que não haviam sido estudados com esse nível de precisão, enquanto dados do Gaia ajudam a determinar como essas estrelas se movimentam pela galáxia.
Isso mostra por que telescópios espaciais não servem apenas para encontrar objetos distantes.
Eles também podem olhar para dentro da nossa própria galáxia e encontrar vestígios de acontecimentos que ocorreram bilhões de anos antes do surgimento da Terra.
A Via Láctea que vemos hoje é, portanto, o resultado de uma história muito mais complexa do que uma única galáxia simplesmente se formando e permanecendo praticamente igual.
Ela cresceu, incorporou outras estruturas e continua evoluindo.
E, ao encontrar os vestígios dessas antigas fusões, os astrônomos estão começando a reconstruir como a nossa galáxia chegou a ser o lugar onde hoje existem o Sol, a Terra e tudo o que conhecemos.
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