A IA está deixando os celulares melhores ou apenas mais caros?

A corrida pela inteligência artificial está aumentando a demanda por memória e outros componentes, podendo impactar os preços dos smartphones e mudar a relação entre recursos e custo dos aparelhos.

AGORA NA TECH

8/22/20264 min read

A inteligência artificial está se tornando uma das principais características dos smartphones modernos. Recursos capazes de editar imagens, resumir textos, traduzir conversas, interpretar fotografias e executar tarefas diretamente no aparelho já começaram a fazer parte da experiência de usuários.

Mas existe um efeito menos evidente dessa corrida pela IA: o aumento da demanda por memória e outros componentes pode tornar os dispositivos eletrônicos mais caros.

O problema não está necessariamente na inteligência artificial presente dentro do celular. Ele começa muito antes, nos enormes data centers responsáveis por treinar e executar os modelos de IA utilizados por serviços como assistentes virtuais, ferramentas de geração de imagens e sistemas de análise de dados.

Esses centros de processamento precisam de grandes quantidades de memória de alto desempenho. Ao mesmo tempo, fabricantes de chips estão direcionando parte de sua capacidade produtiva para atender justamente essa demanda.

O resultado é uma pressão sobre a oferta de memória convencional utilizada em computadores e smartphones.

A corrida pela IA também é uma corrida por memória

Para entender o problema, é preciso lembrar que inteligência artificial não depende apenas de processadores extremamente rápidos.

Os sistemas modernos também precisam movimentar enormes quantidades de dados rapidamente. É aí que entra a memória.

Nos data centers, uma tecnologia chamada HBM (High Bandwidth Memory) é utilizada junto a aceleradores de IA para fornecer grandes volumes de dados em alta velocidade. A demanda por esse tipo de memória cresceu rapidamente com a expansão da infraestrutura de inteligência artificial.

Fabricantes como Samsung, SK hynix e Micron estão entre os principais fornecedores desse mercado, e a expansão da produção de memória voltada para IA está competindo por capacidade que também poderia atender outros segmentos.

Isso ajuda a explicar por que o problema não fica restrito aos data centers.

A memória utilizada em um smartphone é diferente da HBM encontrada em aceleradores de IA, mas todas essas tecnologias fazem parte de uma cadeia de fabricação que possui capacidade limitada.

Quando a demanda por determinados produtos cresce muito, os fabricantes precisam decidir onde concentrar seus investimentos e sua produção.

E o mercado de IA atualmente movimenta valores enormes.

O consumidor começa a sentir os efeitos

Os primeiros sinais já apareceram no mercado de smartphones.

A OnePlus, por exemplo, aumentou recentemente os preços de alguns aparelhos vendidos na Índia, em meio à elevação dos custos de memória. Cinco modelos das linhas Nord e N tiveram reajustes de até ₹4.000.

Não significa que todos os celulares ficarão automaticamente mais caros ou que cada aumento de preço seja causado exclusivamente pela IA.

Fabricantes também enfrentam custos relacionados a processadores, telas, câmeras, logística, câmbio e outros componentes.

Mas a memória se tornou um fator importante.

Uma projeção da Gartner publicada neste ano estimou que o aumento dos custos combinados de DRAM e armazenamento poderia elevar os preços médios dos smartphones em cerca de 13% em 2026, em comparação com 2025. A empresa também prevê queda nas vendas globais de smartphones diante desse cenário.

Isso cria uma situação curiosa.

Ao mesmo tempo em que os fabricantes querem colocar mais inteligência artificial nos celulares, os recursos necessários para oferecer aparelhos mais avançados estão ficando mais caros.

Mais IA significa necessariamente um celular melhor?

Não necessariamente.

Essa é talvez a parte mais interessante dessa discussão.

Um smartphone pode receber dezenas de recursos de inteligência artificial e, ainda assim, nem todos serão úteis para todos os usuários.

Algumas funções podem realmente facilitar tarefas do cotidiano, como tradução em tempo real, organização de informações, edição de fotografias ou recursos de acessibilidade.

Outras podem ser utilizadas poucas vezes ou simplesmente funcionar como demonstrações das capacidades do aparelho.

Além disso, existe uma diferença importante entre IA executada diretamente no smartphone e IA processada na nuvem.

Quando o processamento acontece no próprio aparelho, é necessário ter hardware capaz de executar os modelos localmente. Isso pode exigir mais memória, processamento e eficiência energética.

Por outro lado, tarefas executadas em servidores podem depender mais da conexão com a internet e da infraestrutura da empresa responsável pelo serviço.

Os fabricantes precisam encontrar um equilíbrio entre essas duas abordagens.

E o que isso muda na hora de comprar um celular?

Para o consumidor, a principal consequência pode ser uma mudança na relação entre preço e recursos.

Se a memória continuar pressionada, fabricantes poderão aumentar preços, reduzir margens de lucro ou procurar maneiras de diminuir custos em outras partes do aparelho.

Também pode acontecer de determinados recursos antes restritos aos modelos premium começarem a chegar aos aparelhos intermediários, enquanto outras especificações sejam reduzidas para manter os preços competitivos.

Esse movimento já pode ser observado em diferentes segmentos da indústria de tecnologia.

A IDC e outras empresas de análise vêm acompanhando os efeitos da alta dos custos de memória sobre computadores e smartphones, enquanto fabricantes tentam adaptar seus produtos ao novo cenário.

Isso significa que, nos próximos anos, comprar um smartphone poderá envolver uma escolha cada vez mais clara:

pagar mais por recursos avançados de IA ou optar por um aparelho mais simples que priorize aquilo que realmente será utilizado.

A inteligência artificial pode encarecer até aquilo que não parece ter relação com ela

Esse é talvez o ponto mais importante dessa história.

Quando pensamos na expansão da inteligência artificial, normalmente imaginamos novos aplicativos, robôs, assistentes virtuais ou ferramentas capazes de criar textos e imagens.

Mas a transformação acontece também nos bastidores.

Os enormes investimentos em data centers aumentam a procura por processadores, memória, armazenamento, energia e infraestrutura. E quando uma indústria inteira passa a competir pelos mesmos recursos, os efeitos podem chegar a produtos que parecem não ter relação direta com ela.

Um smartphone vendido em uma loja não precisa necessariamente executar um grande modelo de IA para sentir os efeitos dessa transformação.

Ele pode simplesmente utilizar um componente cujo mercado foi alterado pela corrida global pela inteligência artificial.

Por isso, a pergunta talvez não seja apenas se a IA está deixando os celulares melhores.

Ela também está começando a mudar quanto custa produzir um celular e quais recursos estarão disponíveis em cada faixa de preço.

E essa pode ser uma das consequências mais concretas da atual corrida pela inteligência artificial para quem simplesmente pretende comprar um smartphone nos próximos anos.

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